O diário de um cavaleiro - 3ª parte

11º dia de abril de um mil e treze – A lua-cheia.

Armadilhas prontas, homens à postos, dividir e conquistar. Estamos espalhados por todo o pé do desfiladeiro. Olhamos para cima e ficamos nos perguntando como um animal consegue escalar essas rochas, quase retas e escorregadias, pois durante a noite ele fica ainda mais assustador. Mas mesmo conhecendo esses perigos, nós os cavaleiros da escuridão, não tememos nada que venha das sombras ou de qualquer outro lugar. Estamos mais do que preparados para enfrentar qualquer criatura que aparecer. E esses seres nos conhecem bem, pois nossa fama é de séculos e mais séculos de lutas e glórias. Nada tememos desde que a ordem fora criada. E se eu consegui voltar do reino dos mortos, posso enfrentar qualquer coisa viva que caminhe, voe ou rasteje nesta terra.

De repente ouvimos gritos vindos do lado leste do desfiladeiro. Corremos imediatamente para o local. Era um local de difícil acesso, pois as plantas e árvores eram por demais densas, e assim que chegamos, um dos nossos cavaleiros estava agachado, tremendo de frio e de medo. Sua armadura havia sido arrancada e suas armas foram destruídas. Não conseguimos acreditar no que estávamos vendo, pois as nossas armaduras e armas são extremamente fortes e foram confeccionadas por misticismo. Nenhuma criatura poderia sequer arranhá-las. Essa fera está deixando cada um de nós apreensivo. E detalhe: o cavaleiro que encontramos ficava repetindo, em estado catatônico, que não olhássemos nos olhos dele.

Separamo-nos, vasculhamos toda a área do bosque, e nada! Esse animal é esguio. Não o encontramos em lugar nenhum. É como se ele tivesse aparecido do nada e sumido misteriosamente! Estamos percebendo que esse lobisomem é mais esperto do que os outros que nós matamos pela Europa.

O que foi aquilo? Ouvimos um rosnado perto do acampamento e fomos correndo para lá. Ao chegarmos, deparamo-nos com a besta-fera: uns dois metros de altura, pêlo marrom escuro, olhos terrificantes, garras e presas enormes; aparência amedrontadora, como se tivesse vindo do inferno; porte físico igual aos outros lobisomens, só que bem mais assustador. O lobisomem usava uma grossa corrente no pescoço e dois braceletes. A besta-fera encarava-nos como se não fôssemos nada ou ninguém. Ele certamente não conhece e nem ouviu falar dos cavaleiros da escuridão. Mas depois que o capturarmos e o exterminarmos, ele vai voltar pro inferno levando uma boa impressão de nós.

De repente senti que a minha visão estava escurecendo e me lembrei do que o outro cavaleiro disse: de que não era para olhar nos olhos dele. Mas já era tarde e comecei a ter a sensação de que um abismo estava olhando dentro de mim, ou que eu estava olhando para dentro de um abismo, não sei ao certo. Mas aquilo me fez desmaiar, e a última coisa que escutei foi o rosnar da besta-fera e o grito de pavor de alguns soldados.

13º dia de abril de um mil e treze – Um recado do lobisomem.

Assim que despertei, estava dentro de uma das barracas montadas na clareira do desfiladeiro, sendo velado por um dos cavaleiros. Ele me disse que eu havia desmaiado por dois dias, e que o lobisomem havia atacado alguns dos cavaleiros com muita brutalidade, desmaiando-os, mas não ao ponto de matá-los. Os mesmos já foram medicados pelo médico do vilarejo: um velhinho baixinho, calvo, de cabelos e barba compridos, que lembrava muito um gnomo. O doutor estava colhendo ervas para fazer seus remédios, quando deu de cara com os cavaleiros machucados.

O cavaleiro me levou para fora da barraca e me mostrou um recado que o lobisomem havia deixado gravado em uma enorme rocha perto da clareira. Era um recado escrito em diversas línguas. Só que não em línguas diferentes: eram as línguas nativas de todos os cavaleiros que estavam naquela missão junto comigo.

“Vade ad arcem et lapis?”*

“Geh weg und nehmen Sie den Stein zurück zum Schloss!”*

“Gaan weg en neem die klip terug na die kamp!”*

“Allez-vous et prenez le dos aux pierres du château!*”

“Gå væk, og tager stenen tilbage til slottet!”*

“Vete y tomar la parte de atrás de piedra del castillo!”*

“Go away and take the stone back to the castle!”*

[*Tradução do latim, alemão, africâner, francês, dinamarquês, espanhol e inglês: “vão embora e levem a pedra de volta ao castelo!”]

Fiquei impressionado com o que li, pois logo vi que estava se tratando de uma fera muito mais do que inteligente, pois ele conhece a lenda do “gutta sanguinis”. E eu me enganei ao achar que ele não nos conhecia, pois ele sabia quem nós éramos. E pelos escritos que falam sobre “A Guerra das Criaturas”, esse lobisomem tem o perfil de um lobisomem persa. Mas a raça de lobisomens da tribo dos persas não havia sido dizimada em X a.C.? Se realmente ele for um lobisomem persa, estamos diante de uma lenda viva. Um lobisomem de raça pura e não uma vítima que se transforma em besta-fera nas noites de lua-cheia, sem ter o controle de seus atos até que o dia amanheça.

Aquela descoberta me deixou sedento de vontade de capturá-lo. Precisamos capturá-lo, levá-lo para Kripstontower, estudá-lo e absorver todo o conhecimento que ele possui, para que possamos aplicá-lo em nossas táticas de guerra. Montaremos um exército muito mais poderoso do que o exército montado pelo Vaticano, e os enfrentaremos, mesmo correndo o risco de sermos excomungados e acabarmos todos no Inferno. Pois esse derramamento de sangue em nome do Nosso Senhor Jesus Cristo tem que acabar! 

E ele conhecendo a nossa ordem, depois de capturado, irá conosco sem nenhuma resistência. E se resistir, nós o amarraremos bem firme e o levaremos para o castelo.
Apressamo-nos e preparamos ainda mais armadilhas ao redor do acampamento. Um dos cavaleiros teve a brilhante idéia de usarmos uma isca viva para atrair o lobisomem. Concordei que sim e rapidamente ele foi ao vilarejo e seqüestrou uma das mulheres que vinham sempre para o bosque atrás do lobisomem. Dessa vez era a Calidora, a filha dos camponeses. Amarramos a garota perto de uma das armadilhas e ele teria que entrar nela para salvá-la. Escondemo-nos e esperamos. A menina gritava e chorava no meio daquela escuridão e clamava ao lobisomem por socorro.

De repente a menina parou de gritar e ficou em um profundo silêncio. Ouvimos o barulho da armadilha e corremos para lá. Ficamos admirados em como um rabo-de-saia faz coisas surpreendentes quando usados no momento certo. Lá estava ele, preso em uma de nossas armadilhas [uma jaula] feita de aço purificado, com inscrições místicas para prender qualquer tipo de criatura. A fera permanece sentada, em silêncio e de olhos fechados, como se estivesse meditando. Agora é esperar até o dia amanhecer e ver como ele é na forma humana.


Caro leitor: se chegou até aqui e não entendeu,clique no link abaixo  vá retrocedendo a história.
o-diario-de-um-cavaleiro-2º-parte.html

4 comentários:

Felisberto Junior disse...

...olá!Boa noite!
Estou gostando!
Vamos aguardar!
Mas, este "ficarmos admirados como um rabo de saia..etc.."...vai gerar protesto das ONGs...rsrs
Bom domingo!
Abraços!

Gi Zamai disse...

Oie! Saudades das suas visitas...Esqueceu de mim? Beijossssssss

OGROLÂNDIA disse...

já ansioso pelo próximo capítulo.
algo me diz que esse lobisomem se trancafiou de propósito, com algum intuito ainda nao revelado!
que venha o resto da saga!

Viviane disse...

Gostei mais desse capítulo que do 2º, acho que esse foi mais especifico.

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"Não é no silêncio que os lobisomens se fazem, mas na palavra uivante, nas caçadas noturnas, na liberdade anarquista de pensamento e na ação-reflexão. Eu sou um lobisomem intelectual, e não tenho medo de ser amoroso e instintivamente sexual ao mesmo tempo. Eu amo as fêmeas da espécie e as desejo ao mesmo tempo. E é porque amo e desejo ao mesmo tempo, que luto devotadamente para que as fêmeas da espécie sejam tratadas da melhor maneira possível, sem violências, sem humilhações e sem abusos."